quinta-feira, 5 de março de 2020

Semidivindades

Estou num semideiro
Sem ideia para onde ir
Talvez me ache uma semidéia
Porque te acho um semideus

Com tantas divindades,
A maior delas é o teu amor
Cativaste-me por inteiro
Agora não sei para onde vou
Se vou ao teu encontro
Ou se fujo do teu calor

Não sei como um semideus
Pode ser semibárbaro
Só sei que barbarizou meu coração

Pensando bem...
É melhor seguir teus passos
Só assim eu não me perco
No semideiro que eu mesma criei

Taíssa Cazumbá
2000

terça-feira, 2 de abril de 2019

Pra não dizer que não falei da florescência

No dicionário da poesia,
Solpolinizar significa eternizar uns aos outros.
No dicionário da poesia,
Eu nunca tenho razão.
No dicionário da poesia,
Morrer é o mesmo que reviver.
No dicionário da vida atual,
A Poesia se resume a bolhas sociais,
Ilhas ecológicas,
Ilhas psicológicas,
Naturezas insustentáveis,
Paradoxos, Alucinações,
Aliterações angustiantes,
Deslizes humanos, perversidades,
Sílabas revoltantes
Que saem aos berros
De uma raça não liberta.
Só a poeira do vento é que parece carregar alguma verdade
(estamos nos intoxicando).
Antes o verde, ele carregasse.
Qualquer coisa que fizesse a humanidade olhar pra si com carinho,
Reconhecer-se no gafanhoto e na formiga,
No avião e no passarinho,
No morango e no grão de milho,
Na mãe, na avó, no birrento filho,
No abutre e na carcaça,
No opressor e no oprimido,
No presidente e no presidido.
Enxergar-se em sua própria essência: democrática, dual e plena.
Enxergar-se em sua sua missão-auto-germinação.
Vingar até desenvolver sua megaflorescência
Ser no mundo, fluorescência...,
Amar até renascer.
No dicionário da poesia,
O cosmo sou eu,
O cosmo é você.
E é tudo mais.

(Taíssa Cazumbá)

sábado, 9 de junho de 2012

Eu Não Tô Nem Aí


O problema é teu.
E eu com isso?
Quem pariu Mateus que se balance
Porque eu não tô nem aí
Se ergueu o mastro então alcance
Se as pessoas passam fome na Etiópia
Não tô nem aí se o Brasil perdeu a Copa
E eu com isso?
Se seu filho usa drogas
O pepino é todo seu
E eu com isso?
Se foi preso o inocente
Se tem mais uma pessoa doente
Eu é que não tô nem aí
Ah... Se o presidente roubou
Se o mendigo chorou
Se o menino matou
Se a mulher se suicidou
Se a menina abortou
Eu não tô nem aí
Me diz, Brasil, e eu com isso?
Se o emprego ocê perdeu
E você não mereceu
Mas entenda!
É que o problema não é meu.

Se a casa cair
Se o mundo explodir
Eu não tô nem aí
E se vão falar de mim
Por mim, posso não estar mais aqui
Se ninguém for ao meu enterro.
Eu não to nem aí
O problema só será meu
Não quero cuidar do meu
Porque vou cuidar do seu?
Eu é que não tô nem aí
Se a vaca não der mais leite
Se todos morrerem de sede
 Se seu filho não sabe ler
O problema é todo seu
Se o policial também é bandido
Eu não tô nem aí
Sei que ninguém vai se lembrar de mim
 Mas eu não tô nem aí
Tenho uma dúvida enorme:
Se eu me mover
Será que o mundo vai me conhecer?
Não... Acho que não!
Por isso é que eu não tô nem aí!

Taíssa Cazumbá

Viver Mais


Queria viver mais e envelhecer menos
Queria viver mais e perder meu medo
O medo da velhice
Não pelas rugas
Não pela pele mastigada e sim pelo atraso mental
Não pela coluna cansada e sim pelo sim a sociedade

Queria viver bem mais para provar ao mundo
Que não é só ele que dá voltas em torno de si mesmo
Eu também consegui dar voltas em torno dele
E que ele também deu voltas em torno de mim
Mas eu consegui firmar-me a todo o instante

Queria viver mais para poder mostrar ao Sol
Que não é só ele que consegue iluminar as pessoas
Eu também consegui e cada raio meu que incidia
Dava mais um dia de vida para alguém desesperado

Queria viver mais e mostrar para Einstein
Que nem sempre a resposta certa
seria a melhor resposta

Queria viver mais tempo e provar pro tempo
Que ele não nos dá tanto tempo
Para fazermos tudo o que queremos

Eu queria viver mais e agradecer à insônia
Por me livrar dos pesadelos
Eu queria viver mais
E ao chegar ao ápice da minha velhice
Amar ainda minha tatuagem
E usar meus jeans rasgados                                                             

Queria viver mais e não lembrar dos que se foram
Dos que não conseguiram intervir para os problemas sociais
Os que ao ter o mundo nas mãos deixaram-no cair
Eu queria viver mais, e ainda mais, apesar de tudo o mais...
 sorrir demais

Eu queria viver mais e ver que meus rins e meus pulmões
Apesar de tudo, ainda estão bons
Eu queria viver mais, mas talvez não viva tanto
(Apesar de acreditar na cigana)
Pela imensa vontade, pelo imenso desejo...
De viver mais.

Taíssa Cazumbá

Canções de Quarto



Tão surreal
Parece mágico
Do jeito em que tudo começou
Tão inusitado
E no chuveiro eu ensaio as canções
Que fiz pra você no meu quarto
As canções enquanto estava nos teus braços
Momento de muita alegria.

No chuveiro ensaio essas canções
Marcadas pelo que é eterno
No quarto marcado pelo nosso amor
Neste quarto eu compus
As canções que no banheiro eu ensaio.

Taíssa Cazumbá

Dissolução


Tudo que pra mim era certo
Agora é errado
Tudo o que pra mim era errado
Tornou-se certo
Tudo que pra mim levava tempo
Tornou-se rápido
O que pra mim era comédia
Tornou-se tragédia
Tudo o que pra mim era vital
Tornou-se mortal
Tudo o que pra mim era novo
Tornou-se arcaico
Tudo que pra mim era muito
Tornou-se pouco
O que pra mim era banal
Tornou-se essencial
Tudo o que pra mim fez-me rir
Não tem mais graça
Tudo o que pra mim era bom
Tornou-se uma desgraça
O que pra mim era riqueza
Tornou-se pobreza
Tudo o que pra mim era leal
Tornou-se falso
Tudo o que pra mim era pequeno
Ganhou espaço
Só tempo é quem faz
Só o tempo é quem desfaz
Só tempo refaz

Taíssa Cazumbá

A Saga do Sábio e do Sabiá



O sabiá sabia que o sábio sabia mais que ele
O sábio também sabia que o sabiá cantava mais
E nesta saga tão serena encontrou-se um problema
O sabiá de uma grande árvore resolveu se atirar.
Mas seu instinto de ave o levou a voar.
O sábio também resolveu se jogar.
Mas depois percebeu que não tinha asas de sabiá.
O sabiá fez-se forte
E tentou ao sábio alcançar
Com muito peso em suas costas
Conseguiu o salvar
Logo, ambos perceberam que juntos eram perfeitos
O sábio fez a poesia
E o sabiá pôs-se a cantar.
Cada qual tem o seu dom
Uns cantam, uns dançam
E outros fazem som.
Ser sábio ou sabiá?
Tanto faz pra quem sonhar!
O melhor de tudo é poder se revelar.
Você faz sua melodia
Eu faço a minha arte
Você faz a poesia
E vamos a qualquer parte.

Taíssa Cazumbá

Soneto Secreto


Tenho um poema escondido
No meio de um livro em algum lugar
Tenho um grande irmão, um grande amigo
Pra ele eu posso revelar

Não se trata apenas de versos
São pensamentos complexos
Que invadiram o meu ser

Falei de todas as dores
Falei dos rumores
Que um dia eu vi nascer

Se todos os homens fossem fiéis
Recitaria pro mundo
O que tem de profundo
Naqueles velhos papéis

Taíssa Cazumbá

Fascínio da Arte

Mesmo que eu perca a visão,
Os perfumes das tintas me guiarão.
Mesmo que eu esteja velho e cansado,
Os aplausos me levarão ao palco.
Mesmo que minha coluna não agüente,
Escreverei todos meus pensamentos
Por intermédio de alguém.
O que não dá é pra viver sem arte.
O que não dá é pra ser infeliz.
Pois viver sem arte,
É viver como zumbis!

Taíssa Cazumbá

Espero ou Não



Só não espero que a última chama se apague
Só não espero que o último menino seja corrompido
Só não espero que o último beijo seja esquecido
Só não espero que a última gota seque

Que o último gênio seja assassinado
Que o último prédio seja desabado
Que o último índio seja queimado
Que o último mendigo seja pisado

Eu só espero que a última noite tenha sossego
Eu só espero que dê frutos o outono inteiro
Eu só espero que a última árvore seja regada
Eu só espero que a última urtiga seja cheirada

Que o último vento guie o barco
Que o último tiro não atinja o alvo
Que o último sino toque ao Norte
E que a última estrela brilhe forte

Só não espero que o último velhinho seja caduco
Só não espero que o último homem seja volúvel
Só não espero que a última pomba seja alcançada
Só não espero que a última donzela seja magoada

Taíssa Cazumbá

Anos Luz


Sinto-me disparar como um míssil inalcançável
Em anos luz à frente de toda a minha classe
De toda família, vizinhança e amizades.

Sinto-me retardado como um velho lastimável
 Que mal sabe que sua longa idade
Lhe trás sabedoria e felicidades.

Às vezes perto demais
Às vezes longe
Busco-me e não me alcanço
Mas fujo de mim
E acabo me encontrando

Vivo de dúvidas
Mas não me julgo cético
Vivo sem resposta
Mas não me julgo leigo
É que não consigo acreditar
Em tudo o que me dizem.
Eu só acredito nos mortos.
E dos que estão vivos,
Só acredito nos loucos.

Taíssa Cazumbá

Ambição



Assim como o bico da andorinha orienta o seu vôo
A nossa mente orienta nossos passos
Buscando espaços
Que talvez nunca nos serão dados

A vida conspira pra que sempre busquemos
E por mais que alcancemos
Nunca nos será o bastante
Nunca estaremos saciados

Se no deserto buscamos oásis
No oásis queremos um castelo
E no castelo exigimos a melhor cama
Na melhor cama almejamos a mais bela dama

Taíssa Cazumbá

Mundo do Absurdo


Muitas portas e nenhuma chave
Muitos bilhetes e nenhum sorteado
Muitos gênios e nenhum acordado
Muitos barcos e nenhum leme

Muitas mulheres e nenhuma assumindo
Muitas mães e nenhuma apoiando
Muitos professores e nenhum educando
Muitos reis e nenhum sendo digno

Muitas canetas e nenhuma prestando
Muitos pincéis e nenhuma tinta
Muitas espécies, a maioria extinta
Muitas árvores e ninguém regando

Desperta, Povo!
O mundo está rodando
Mas nós estamos parados
Desperta, Povo!
A música está rolando
E nós estamos calados.

Taíssa Cazumbá

Confusão


Não sei o que fazer
Tudo muda quando estou com você
Você até me pediu pra te esquecer

Mas esqueço as horas
Os ponteiros atrasam
Esqueço os amigos
Lembro quando me abraçam
Esqueço os caminhos
Eles mesmos me desabam
Volto triste a te ver
E me pede pra esquecer de te esquecer.

Aí tudo muda
Sinto-me confusa
Tanto já mudei pra te seguir
Tanto já neguei pra te servir
Faço tudo por você
Só não me peça novamente
Pra eu te esquecer.

Taíssa Cazumbá

Soneto de Mudanças


Algo quer me corromper
O que não me limpa quer me poluir
Já o que não me apaga quer me acender

Luto, luto
Mas acabo me batendo
Ando, ando
Mas acabo me perdendo

A alma está me confundindo
O coração está me revendendo
A mente está brilhando
Mas meus braços estão doendo

A sua sorte quer me fracassar
O seu instinto quer me açoitar
Mas eu não quero parar de lutar

Taíssa Cazumbá

Dia de São Nunca


São nunca me visitou
Ontem à noite
E disse que vai chegar seu dia
Jurou que seu dia vai chegar.

Me disse que nesse dia
Todas as crianças
Gostarão de estudar
E que todos os gatos
Serão amigos de um preá

Disse que não será preso
Nenhum inocente
E que neste dia
Não haverá nunguém doente

Além de que não irá haver
No mundo inteiro
Ninguém brigando
Ou guerreando por dinheiro

E que todos os filhos
Obedecerão os pais
E que ninguém na terra
Maltratará os animais

No mesmo dia quem for picado
Por cobra venenosa, sobreviverá
E nenhum político no planeta
Nesse dia irá roubar

E aqui estou eu
Ansioso por esse dia
Que são nunca prometeu
Que um dia vai chegar.

Taíssa Cazumbá

Carpe Diem


Aproveito a vida
Porque na morte
Não terei mais chance de errar

Se a vida é feita de escolhas
Tenho que arriscar
Na maioria das vezes
Faço a escolha errada
Pior ainda é não escolher
Pois serei levado pelo tempo
Como plumas jogadas ao vento

Ainda tenho um testemunho a dar:
Não tem como o homem apenas acertar
E é por este motivo que resolvi aproveitar

Taíssa Cazumbá

Desconhecido de Mim


Sou desconhecido de mim
Uma besta bípede
Que não consegue se encontrar
Andando na escuridão
Clareando apenas em instantes
Com um poder maior que me consome

E a cada luz que vejo à minha frente
Penso ter me descoberto
Só que são apenas em segundos
Desta hora que não quer acabar

A divina caçada de ser o que ainda nem sei.
De me situar entre os gênios
E fazer-me com eles.
De me situar entre os artistas
E ser tão perfeito quanto

De simplesmente me descobrir
Conhecer-me
E finalmente
Ser quem eu quero ser.
E me amar
Assim sem limites
Eu conhecendo a mim mesmo
E ganhando a minha própria amizade
Sem ambições.

Taíssa Cazumbá

domingo, 18 de setembro de 2011

Fonte da Juventude


Não espero que os adultos entendam o que estou prestes a declarar. Mas a verdade é que ninguém nasce novo e ninguém está predestinado a morrer velho.
Desde a infância, nós ouvimos histórias da Terra da Nunca e da tal Fonte da Juventude, mas esses “faz-de-conta” dependem só do “faz” de alguém.
Há quem busque dentro de si a Fonte da Juventude e a encontre sem demora. Eu sou capaz! Não quero morrer velho e isso não significa que quero morrer cedo porque a velhice é definida por atitudes. Vejamos: somos nós que nos colocamos na condição de que se nossos ossos estão debilitados não devemos correr na praia. Por quê?
Os médicos dizem para moderar nos esforços, mas não dizem que devemos parar de andar, ficar sentados o tempo todo na poltrona na frente da TV, mas TV em excesso também pode prejudicar a visão, não é? Deveríamos então, passar o resto das nossas vidas dormindo? Se te faz bem, sim! O que me faz bem é a juventude e se a você também faz sejamos jovens.
Joguemos bola, uma vez por semana.
Vamos à praia, de quinze em quinze dias.
Falar bobagens com os amigos, de quando em quando.
Comer pastéis, uma vez no mês.

Quem disse que Terra do Nunca não existe?
Quem disse que Fonte da Juventude não existe?
Quem disse que Faz-de-conta não acontece?

Terra do Nunca sempre existiu, mas a gente perde o mapa quando cresce.
Fonte da Juventude sempre esteve dentro de cada um de nós, mas a gente deixa secar.
E o Faz-de-conta só não acontece pra quem não faz ou receia contar.

Taíssa Cazumbá
14/06/09